O político honesto que você quer está dentro de você
Estamos vivendo um momento histórico da política brasileira. Vários fatores convergem para isso: o movimento da extrema direita brasileira querendo usar todos os recursos disponíveis para destruir o único candidato de esquerda possível no país atualmente. Inclusive, temos um país como os Estados Unidos, possuidor de enorme força bélica e de recursos financeiros, querendo interferir diretamente nas nossas eleições.
Entendo o desespero e o desânimo de muitos camaradas que assistem a esse cenário sentindo como se estivéssemos diante de um filme de desastre, daqueles em que sabemos que algo terrível está acontecendo, mas parece não haver nada que possamos fazer para impedir o desfecho.
Mas aqui estamos em um ponto de convergência: a história pode seguir para dois lados, e quem decidirá isso somos nós.
Ontem, no final da entrevista que o Lula deu para o canal Flow (recomendo vocês a assistirem na íntegra), o candidato a presidente fez um convite aos idosos e à juventude para participarem da política. Mas, neste momento, gostaria de destacar o que ele disse aos jovens.
Em sua fala, Lula demonstra entender o sentimento de revolta que habita no coração da juventude brasileira diante de tanta corrupção e reconheceu que já foi esse jovem revoltado. Mas ele lembrou que, se queremos políticos honestos, nós devemos ser esse político.
De nada adianta esperar do outro aquilo que nós devemos fazer. Em algum momento, nós — e, quando falo isso, também me incluo — nos isentamos da realidade ao nosso redor, ao nos acomodarmos e deixarmos de nos responsabilizar pelos movimentos políticos existentes em nossos meios sociais, como escolas, comunidades, bairros etc.
Quem nunca reclamou de algo errado e ouviu como resposta que “não adianta, nada vai mudar” e “aqui sempre foi assim”?
Então, crentes de que a realidade era enrijecida demais para propor mudanças, resolvemos viver nossas vidas, cumprir a lista de tarefas para no final do dia aproveitarmos as pequenas doses diárias de prazer que nos foi permitido usufruir. Porém, a realidade é uma construção e uma sociedade é feita de trabalho e suor. Não é por nada que as grandes mudanças da história foram conquistadas com luta e resistência.
Todos nós desejamos uma vida tranquila e leve, porém, nem só de coisas boas existem nesse mundo. Ainda há muito a ser feito, enfrentado e debatido. As questões que assolam a humanidade a séculos não serão resolvidas em uma reunião, com um projeto de lei ou um discurso motivador. A evolução de uma sociedade exige estudo e debate, erros e acertos e, principalmente, revisionismo histórico.
Precisamos olhar para trás e aprender com os erros que cometemos. Apagar o passado não nos isenta das nossas responsabilidades enquanto sociedade. E o trabalho deve começar dentro de nossas famílias, no nossos ambientes de trabalho e nas nossas comunidades. Para mudar o mundo é preciso começar pelo nosso bairro.
Talvez esteja aqui o maior desafio da nossa e das próximas gerações: compreender a realidade atual sem minimizar as coisas negativas, mas também entender que somos coresponsaveis por ela. Quando nos isentamos, quanos silênciamos, quandos nos escondemos estamos permitindo que as coisas continuem como estão ou até piorem.
Foi pensando nisso que resolvi tirar um projeto da gaveta: o Senta Aqui Jovem.
Não sei ainda exatamente onde esse projeto pode chegar. Talvez ele comece aqui, através dos textos que escrevo e das conversas que quero propor. Talvez, com o tempo, ganhe novos formatos, como vídeos, podcasts, encontros e outras formas de educação popular.
Mas sei onde quero começar: criando um espaço para conversar sobre política, sociedade e tudo aquilo que atravessa a nossa vida coletiva.
O Senta Aqui Jovem é a forma que encontrei de não ficar apenas reclamando da realidade que me incomoda, mas de fazer alguma coisa a partir dela. De estudar, debater, perguntar e, principalmente, criar espaço para que outras pessoas também possam fazer isso.
Porque talvez transformar a realidade não comece com grandes discursos ou grandes projetos. Talvez comece simplesmente quando alguém chama o outro e diz:
“Senta aqui. Vamos conversar.”
Raquel Barbosa Becker
